sexta-feira, 19 de setembro de 2008

É bom sentir ciúmes?

Em relação a este tema existem pelo menos duas perspectivas:

A dos sonhadores e a dos realistas.

Para os primeiros, o ciúme não pode ter lugar numa relação onde o amor ocupa todos os espaços da mesma. Sendo um amor perfeitamente correspondido não é possível haver ciúme pois qualquer uma das partes compreende e vislumbra na outra a impossibilidade de existência de uma traição. O ciúme, além de desnecessário, é sintoma de que algo vai mal na relação. O ciúme, sendo uma manifestação de insegurança, transporta em si o medo de perder o outro, e o simples facto de ser sentido é de per si prova da inexistência desse amor profundo, do amor sonhado, do amor sentido no reino dos príncipes e princesas encantados. É o amor novelístico ao jeito dos romances de Camilo Castelo Branco. Embora eu tenha tendência para adoptar esta visão romancista, talvez pelas fotonovelas da minha prima que li quando era adolescente, penso que ela é profundamente simplista, confinando a vida dos casais a um sentimento (o amor) e esquecendo-se de todos os outros que são parte do património humano, tal como a paixão, o desejo sexual, a raiva, a angústia, etc...

Para os segundos, uma certa dose de ciúme é o sal que tempera uma relação. É a existência deste ciúme que permite que uma relação nunca adormeça e esfrie lentamente. Um certo desassossego impõe que os amantes sejam obrigados a desenvolver esforços para manter a chama do amor sempre acesa. Na minha opinião esta visão também enferma de problemas porque aqui essencialmente o que está em causa é saber dosear a quantidade desse ciúme. Às vezes um dos amantes age de forma propositada para o provocar no outro. É um jogo perigoso que apenas pode ser utilizado por jogadores muito experientes que conhecem perfeitamente o seu parceiro, podendo provocar ondas de choque terríveis que destroem os alicerces das relações.

É evidente que apenas os primeiros acreditam no amor eterno pois esse amor que sentem não pode nunca ser derrubado.

Eu poderei não acreditar no amor eterno.
Mas que me dá um gozo extremo sonhar com ele dá sim senhor!
Oh se dá!
E certamente será sempre um objectivo que perseguirei toda a vida. Quem sabe se ele não estará ali mesmo ao virar da esquina?

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2 comentários:

Sininho disse...

Pois caro JP, resta saber onde começa e acaba o cíume. Aqui também há a versão dos realistas e dos sonhadores:
- Na versão dos realistas o cíume começa quando sentimos que estamos a perder o lugar de destaque no coração de álguem para quem somos importantes, e termina quando aceitamos que essa pessoa tem o direito de dividir o seu coração por quem bem entender.
-Na versão sonhadora, começa quando começa o sentimento de posse. Mesmo que o nosso lugar continue na mesma posição de destaque, não nos parece admissível que coexistam outras pessoas, a quem tenhamos de "ceder" espaço por pequeno que seja, no coração que consideramos exclusivamente nosso.Esta versão termina normalmente.....MAL.

Reduzindo-nos ao amor mais puro, entre Pais e filhos. Tomemos os Pais como exemplo da racionalidade e os filhos como exemplo do "sonhador" .É normal os filhos sentirem cíumes dos próprios pais e irmãos, enquanto pequenos. Estão habituados a uma posição de destaque e atenção. Para eles, a chegada do novo irmão obrigará á partilha do espaço que lhes é reservado no coração dos pais, não lhes passando pela cabeça que a capacidade de amar dos pais, permanecerá inalterado.

No entanto os pais irão aceitar com um cíume sereno, que a sua posição de destaque no coração dos filhos irá desparecer ,com o tempo, e que outros/as companheiros/as e filhos irão ocupar esse mesmo lugar que um dia foi deles/as. Com certeza que os pais entenderão que é a Lei da vida.

João Pedro disse...

Olá Sininho:
Não posso concordar com parte dos teus comentários.
Ora vejamos:
Não é o facto da aceitação do direito de dividir o coração com quem bem se entende que faz terminar o ciúme. Todos temos a noção de que as pessoas gostam de quem gostam e possuem certamente esse direito. É a constatação (ou a simples suspeita) de que alguém estará a ocupar o espaço que anteriormente possuía que faz nascer o ciúme.
E sem dúvida é um sentimento de posse que tem a ver com o facto de sermos seres humanos que ainda não se regulam apenas pelas vertentes da lógica computacional.
Por isso subsistem, apesar de todos os normativos legais em vigor que afastam a legalidade dessa posse, frases tão usadas como por exemplo eu sou teu, tu és minha, a minha namorada, o meu homem, o meu amor, a minha bichinha, etc.
O que está em causa não é a cedência de espaço no coração porque esse "orgão" tem lá espaço que nunca mais acaba. É o tipo de lugar.
Como é evidente este meu comentário tem a minha visão pessoal e aceito que haja outras opiniões e, mais que opiniões outras sensibilidades porque é de sentidos que estamos a falar. Afinal as pessoas são sempre tão diferentes!